sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A minha perda gestacional

Decidi partilhar a pior experiencia da minha vida!
Não quero fazer-me de coitadinha, longe de mim! Quero apenas partilhar para que quem passa por algo semelhante não se sinta tão sozinha! Porque dói, demais até e nenhuma mulher que deseja tanto ser mãe merece passar por isso!
Aqui vai!
Abril 2011
Três dias de atraso. Era frequente acontecer…
O primeiro café da manhã não me passava na garganta e o cheiro do primeiro cigarro que acendi causou-me náuseas.
“Bolas, outra crise de vesícula”, pensei. Os sintomas eram os mesmos, embora há muito tempo que não as tivesse…
Comecei a matutar… Atraso, náuseas, e se não for a vesícula a dar de si?
Fiz um teste! Positivíssimo! Estava gravida! Não consegui guardar a notícia para quando o marido chegasse.
Liguei-lhe! Disse-lhe que íamos ser pais! Emudeceu! Foi apanhado de surpresa! Estava contente, claro, mas nervoso também!
Marquei a primeira consulta na MF, pelas contas eram 5 semanas de gente que carregava dentro de mim! Estava a viver um sonho! O meu sonho!
Mas a vida tem um jeito estranho de nos fazer crescer e aprender!
Acordei numa poça, tinha perdido imenso sangue e não segurei as lágrimas que me caíam sem cessar!
Fomos directos ao hospital. Um descolamento de placenta enorme foi o diagnóstico! Repousar era a única coisa que podia fazer!
Marquei consulta no obstetra, precisava de outra opinião, talvez me tranquilizasse.
Redondamente enganada!
Seis semanas de gravidez e um descolamento brutal, as chances de a gravidez evoluir eram apenas 50%...
Chorei dias a fio, passei noites em claro… Porquê a mim? A nós?
Como pode a vida ser tão cruel? Como pode dar-nos tamanha alegria, para logo depois nos dar tamanho desgosto?
Consultas semanais. O bebé não estava a evoluir, até que numa das consultas já não haviam batimentos…
Chorei, inconsolável… O médico tentou confortar-me. “Se aconteceu assim é porque tinha de ser. Vamos deixar a natureza seguir o seu curso!”
Mas até essa estava contra mim!
O meu corpo recusou-se a expulsar aquele bebé! Era nosso, não podíamos mandá-lo embora! A espera foi angustiante…
Partilhei momentos de alegria com amigas, radiantes pelo nascimento dos filhos, enquanto calava a revolta que sentia dentro de mim, por ter perdido o que mais desejava!
Chorava sempre que via notícias de bebés abandonados à nascença, mortos à nascença, maltratados pelos pais. Como era possível? Como era permitido a tanta gente que não sabe ser mãe e pai terem filhos e aqueles que mais desejam poder sê-lo, passarem pela mesma situação que eu? Ou até não conseguirem mesmo engravidar?
Junho 2011
Tive de fazer cirurgia. Os médicos teriam de fazer aquilo a que o meu corpo se recusava! Aproveitavam e retiravam também o mioma, o parasita que cresceu durante a gravidez. Mais lágrimas!
Dei entrada no hospital, 13 de Junho de 2011.
Fui preparada para a cirurgia e esperei mais uma vez, outra longa espera!
Às 15h adormeci no bloco, para acordar no recobro umas horas depois. O médico garantiu “ está tudo bem, limpámos tudo, agora vais para cima descansar!”
Enganou-se redondamente! Não limparam o mais importante, a dor que estava a sentir… Continuava lá e não parecia ter intenção de ir embora…
Perdi um filho! Perdi parte de mim! Só quem passa por isso sabe o quanto dói!
Não há palavras que atenuem a dor que se sente!
Tive alta! “Daqui a três meses podem voltar a tentar” disse o Dr.
Não queria! Estava demasiado frágil, demasiado dorida… Mas principalmente sentia medo, muito medo que acontecesse outra vez!
Recebi telefonemas de conforto, mensagens de carinho, mas nada amenizou a dor que estava a sentir!
É a dor da perda, da impotência, do fracasso!
Dói sempre, não passa, pode atenuar, mas não se esquece nunca!
Tenho a minha estrelinha lá em cima, a olhar por nós!
Setembro 2011
Três meses depois, um primeiro café matinal que não consegui engolir, um cigarro que apaguei mal o acendi e o medo tomou conta de mim, outra vez!
Não podia ser, não estava preparada!
Fiz o teste! Positivo!
Um misto de sensações! Chorei de alegria e de medo em simultâneo, mas desta vez já não gritei ao mundo que estava a gerar um ser, que ia ser Mãe!
Esperei que o marido chegasse para lhe dar a novidade! Chorei no seu ombro com medo do que podia acontecer…
“Vai correr bem!” disse ele. Mal sabíamos nós…
Estava grávida de apenas 4 semanas e aquele bebé já era o meu tudo!
Guardámos segredo! Concordámos esperar pelos 3 meses, era mais seguro!
E vem a vida outra vez e troca-nos as voltas!
5 semanas e 6 dias de gente.
Senti uma dor forte na barriga e mais uma poça de sangue!
Vi o filme todo passar-me à frente dos olhos.
Chorei o caminho todo para o hospital e quando lá cheguei nem conseguia falar!
Fiz uma eco! O bebé estava lá! Estava bem, tranquilo, o seu batimento no monitor tranquilizou-me! E amei-o ainda mais nesse instante! Mas havia mais! Um descolamento, outra vez! Não podia, era demasiado injusto!
Fui internada, fiz análises e estas confirmaram as suspeitas do Dr.: gravidez gemelar, mas tinha perdido um dos bebés e o outro ainda não estava a salvo!
Permaneci no hospital uma semana e meia! Lutei com todas as forças para aguentar o bebé! Era meu, nosso! E não ia permitir que a vida me trocasse as voltas outra vez! Cumpri todas as indicações, levei injecções diárias, tratamentos com progesterona, tudo por ele! Não ia ser em vão!
Finalmente a tão desejada alta! A placenta estava a colar, podia ir para casa, com a promessa que iria cumprir com tudo o que o Dr. me indicasse.
Permaneci em repouso absoluto até ao final de Dezembro.
As consultas eram a única alteração a minha rotina e o medo continuava a rondar!
No 4º mês de gravidez veio a tão desejada alta! Podia começar a curtir em pleno o meu estado de graça! Podia retomar a vida normal, sem excessos ou grandes aventuras!
Um ano e 5 dias depois de ter perdido a minha estrelinha, tive a maior recompensa da minha vida!
Pedi a estrelinha que olhasse por ele e que me ajudasse a protege-lo!

Apaixonei-me por ele no 1º segundo que o tive nos braços e prometi-lhe que tudo faria para que fosse feliz, sempre!

3 comentários:

  1. <3 lamento teres passado por isso, mas no final valeu a pena todo o sacrificio...
    (Liliana Baptista, esta conta é do marido)

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  2. Minha querida Lili, valeu a pena, tenho o meu maior tesouro! Vai doer sempre, mas falar ajuda sempre a ultrapassar <3 obrigada por tudo o apoio!

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